domingo, 18 de novembro de 2007

AMARGA DOR

Precisava adoçar o café
Não havia açúcar no açucareiro
Era necessário pegar o pote
O pote estava vazio
Era necessário pegar um pacote
Não havia pacote
Era necessário ir ao mercado
Não havia dinheiro
Era necessário trabalho
Não havia vontade

.
.
.


Pegou a xícara de porcelana
Forrou a mesa com a toalha mais bonita
Pegou o bule de café
Colocou-o sobre o objeto designado descansa-dor
E ali de fato o fez,
Saboreando café adoçado de sal

Barbara Leite

...
"Passos pela rua lá vem amor, vem cambaleando entra pra um café..."
Marcello Mira

ODE À TRAIÇÃO

Do jeito que eu lhe predigo
Sinto-me infante que fez arte
Que suplica por liberdade
Julgando um erro o castigo

Da urgência que me entrego
De já ir rondar seu mundo
Faço por não ouvir o eco
Consciência grita: imundo

Do jeito que fomos apresentados
Faço-me agnóstica de minha culpa
Brinco do prazer de imaginar pecado
Nós dois enlaçados em grande fúria

Ouvi atentamente sobre o amor
Mas nunca o deparei de fato
Muitos dizem ser um dissabor
E que olhar pro lado não é errado

O padre um dia ensinou
“Não cobiçar a mulher do próximo”
Mas como lésbica não sou
Deus há de entender, e esta ótimo!

Barbara Leite

...
"E eu já vesti o meu amor, numa camisa de força"
Marco Vilane

EGO COMUM

É de repente que me chega essa confusão
Esse ioiô de pensamentos quase definidos
Um passeio desnecessário entre sim e não
Mísero anseio de cutucar os meus conflitos

Peço a consciência um instante de acalanto
Descanso no azul de um céu que é particular
Rejeito qualquer dor residente no meu pranto
Me aceito humana com necessidade de falhar

Alcanço Assis e suas tão ilustres batatas
E isso não me doeu como imaginava
(pra ser sincera não me doeu.)

Olhei pras estrelas com o egoísmo
Ele me fez um convite sensual
Abdiquei de ser peito ferido
Alegra-me hoje ser punhal.

Barbara Leite

...
"E a voz da santa dizendo, o que é que estou fazendo cá em cima desse andor?"
Chico Cesar

MESMA HISTÓRIA

Cactos nascem solenemente no asfalto
Justificando os espinhos pela futura flor
Todos da mesma laia

Laia laiaaaaaa
Laia laiaaaaaa

Espinhos argumentam os mesmos ais
Dizendo ferir por sua egoística paz
Todos da mesma laia

Laia laiaaaaaa
Laia laiaaaaaa

Flores prometem a mesma ninharia
Enfeite temporário e fantasia vadia
Todas da mesma laia

Laia laiaaaaaa
Laia laiaaaaaa

Dos cactos repúdio a flor
Dos espinhos desprezo ais
Das flores as falsas promessas

O cinza do asfalto me chega mais justo.
Ouço baixinho uma música ao longe
Que me afaga como um grito amigo

“Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus
Laia laiaaaaaa
Laia laiaaaaaa”

Barbara Leite

Trecho de Chico Buarque "Minha História"

PARA PLANTAR LEMBRANÇA

Não tem mais tic-tac
Os relógios correm digitais
Até o merthiolate
Quando uso não me arde mais

Eu já não ouço o tempo
Mas ainda sinto dor

Não tem mais telegrama
Sentimento é virtual
E a música baiana
Resumiu-se em carnaval

Eu já não mando cartas
Mas ouço os filhos de Canô

E diante das mudanças - Ando
Diante das andanças- Mudo
Diante das mudanças –Muda

Barbara Leite

...

"Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"
Belchior

MENINICE


















Onde estão as ladeiras
Que abrigam os meninos
E seus rolimãs
O São João das fogueiras
Dos sonhos antigos
Os pés de romã

Os parques de diversão
Que alegravam a cidade
Por todo domingo
O domador de leão
Com tamanha coragem
Na arena do circo

A adoleta, a ciranda
O corre cotia
Barra manteiga, rouba bandeira
A casa da tia

A coleção de tatu
Figurinhas e selo
Uma porção de moedas
De latas, brinquedos

Os dias longos de minha infância
A dança com meu amor- amigo
A espera do natal com tanta ânsia
O beijo de afeto após o castigo

O tempo cumpriu seu papel
E me fez criança crescida
Passeando num mundo cruel
e aguçando novas feridas

Olhei aflita procurando restos
Devaneei por pouco ter encontrado
Vi uma menina com criança no colo
E aquilo não era nada engraçado

Ela era e não brincava (de)
Mãe da rua.

...
"Saudade então assim é ruim..."
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

SÓ ISSO

Sozinha
Repleta de poeira,

Senhora
Sem eira sequer beira,

Caminha
Descendo ribanceira,

E chora
Sua vida corriqueira...

Apenas dorme para acordar
Acorda somente pra se deitar
Mas antes do sono sempre precede
Um gemido, uma espécie de prece

“Deus, eis que estou cheia de pó.

Suplico:
-Me leve
Ou traga um aspirador de só”

Barbara Leite

...
"Foi SÓ o amor ou medo de ficar sozinho outra vez?"
Marcelo Camelo